Donald Trump faz discurso de Estado da União nesta terça-feira (5) no Congresso dos EUA — Foto: Doug Mills / Pool/ AFP

O palanque era um Congresso rachado; a audiência, uma nação igualmente dividida. O presidente Donald Trump passou boa parte dos 82 minutos de seu discurso sobre o Estado da União serpenteando numa retórica desarmônica, que evocava a comunhão bipartidária sem, contudo, afastar-se um milímetro de sua base eleitoral.

A tensão entre Trump e a maioria democrata que domina a Câmara dos Representantes ficou evidente no tempo dedicado pelo presidente a convencer congressistas de que a construção de um muro na fronteira dos EUA com o México é fundamental para proteger a segurança dos americanos.

Prevaleceu a ladainha divisiva de sempre: sem a barreira para impedir a entrada de imigrantes ilegais — sinônimo de criminosos e invasores — trabalhadores americanos perderiam seus empregos e enfrentariam escolas e hospitais superlotados.

Na lógica do presidente, toda a controvérsia sobre o financiamento de US$ 5,7 bilhões para erguer o muro e conter a imigração ilegal resume-se a uma divisão entre duas classes: a política e a trabalhadora.

Pairava sobre o discurso sobre o Estado da União a ameaça de Trump de declarar emergência nacional na fronteira — manobra que permitiria a ele obter a verba sem precisar do aval do Congresso. Mas, pressionado pelo curto prazo de 10 dias para alcançar um acordo com os democratas e evitar uma nova paralisação do governo federal, o presidente foi estratégico e optou pelo apelo à grandeza.

Habituado a insultar — horas antes de ir ao Capitólio chamou o ex-vice Joe Biden de burro e xingou a mãe do senador Chuck Schumer — Trump instou o Congresso a rejeitar a política de vingança e abraçar o compromisso pelo bem comum.

De sua boca saíram expressões amenas, algumas inéditas em seu vocabulário: “Podemos superar antigas divisões, curar velhas feridas, construir novas coalizões, forjar novas soluções e desbloquear a promessa extraordinária sobre o futuro da América.”

Mas, a esta altura, quando o jogo claramente avança no campo contrário do presidente, existe espaço para a conciliação política? A menos de dois anos das eleições, o presidente americano parece ser o primeiro a não investir nesta aposta.

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